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23 de Julho de 2017

Pequena Resenha do livro "Tratado para Radicales", de Saul Alinsky

Eduardo Luiz Santos Cabette, Professor de Direito do Ensino Superior
há 3 anos

Diria que a obra enfocada é marcada pela "excelência", não porque me identifique com sua ideologia, mas porque é um trabalho de um autor altamente perspicaz e inteligente do ponto de vista político. Também porque sua leitura é imprescindível para todos que desejem compreender as manipulações orquestradas por movimentos políticos radicais de esquerda (digo esquerda porque o autor do livro é de esquerda, mas as regras ali expostas podem ser usadas de muitas formas, inclusive pela direita). O título original em Inglês é "Rules for Radicals". O autor é o agitador e intelectual radical Saul Alinsky. Resumindo o livro é uma mescla de "O Príncipe" de Maquiavel com "A Arte da Guerra" de Sun Tzu. As diferenças básicas nessa mescla para com as obras acima são as seguintes: primeiro as regras para radicais de Alinsky se dirigem a um público totalmente diverso de Maquiavel e de Sun Tzu (o primeiro visa os poderosos, os governantes e sua manutenção no poder, o segundo tem em mira táticas militares, obviamente para militares, embora seja utilizado metaforicamente em muitos campos desde a autoajuda até a administração de empresas). Alinsky, ao reverso, não pretende erigir um texto para ensinar as pessoas a "manter" o poder, senão para derrubá-lo. Além disso, suas táticas são voltadas para organizações civis, para o povo, para organizações populares. Não obstante, trata-se de um verdadeiro "manual de batalha", de "ação revolucionária". A questão da Ética e da Moral e sua relação com a Política difere sutilmente, mas relevantemente, de Maquiavel. Enquanto para Maquiavel a Ética e a Moral deviam ser apartadas da Política, mas este as reconhecia e até respeitava em outras circunstâncias; para Alinsky a Ética e a Moral simplesmente não existem. O autor prega um total relativismo moral e uma ação sem freios (faça o que tiver de ser feito, não importa o que seja, é sua regra de ouro). Mais: se Maquiavel reconhecia a Ética e a Moral e apenas dizia que estas não são compatíveis com a vida Política e com a busca do Poder, Alinsky as nega e as transforma em um instrumento hipócrita para poder conduzir as massas, para apresentar "razões" falsas, moralmente falsas, como motivações para "manipular" as pessoas, para atingi-las emocionalmente. A moral e a Ética não são para Alinsky valores em si, mas meros instrumentos de manipulação e de criação de falsas razões para o agir revolucionário. O que importa é a "manipulação" e o impulsionar das massas para a ação desejada. Interessante verificar que ao final de seu livro, analisando os EUA da década de 1970, manifesta seu "ódio" à classe média, tal como vemos certas "intelectuais" (sic) brasileiras fazerem, mas admite que as fileiras de revolucionários são compostas basicamente de indivíduos oriundos dessa classe. Mais que isso, indica que o crescimento da classe média a torna agora o principal alvo como "massa de manobra" e que seria preciso perscrutar seus desejos, seus medos, suas ambições mais íntimas e profundas para poder "fingir" uma aproximação da causa revolucionária, atraindo os componentes dessa parcela da população para o movimento com uma espécie de sedução pela aventura e uma pitada de "terrorismo" psicológico, levando-os a crer que ou aderem à revolução ou perderão tudo o que têm. Recomenda uma manipulação direta da classe média para obter sua "radicalização". Isso é um resumo. O livro é uma joia para o entendimento das manobras e do pensamento radical, seu absoluto relativismo moral, sua indiferença perante o fato de ter de matar ou enganar, mentir, fingir etc. Doutra banda, contém também críticas interessantes ao Poder financeiro e seu domínio sobre as pessoas, bem como seus danos a uma suposta democracia em que se busque um ideal de liberdade, igualdade e fraternidade em um nível ao menos aceitável. Como disse, Alinsky é um sujeito inteligente e astuto. Percebe muito bem o foço entre a realidade e o ideal e aponta com propriedade esse abismo. O que é nele abjeto é seu absoluto desprezo pela verdade, pela honestidade, inclusive intelectual e moral. Não obstante, é preciso compreender que o autor escreve uma espécie de "manual" para a atuação Política (Política em seu sentido mais raso de luta pelo poder e só isso). Em nenhum momento Alinsky (e nisso é sincero) afirma pretender escrever um tratado filosófico ou ético. Trata-se de Política pura em termos de conquista do Poder a qualquer custo. Portanto, pode sua obra e autor serem acusados de tudo, menos de serem ineficientes para os fins a que se propõem.

REFERÊNCIAS

ALINSKY, Saul. Tratado para Radicales. Manual para revolucionarios pragmáticos. Trad. Marta Álvarez Sáez. Madrid: Traficantes de Sueños, 2012.

3 Comentários

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O resumo da editora trata: Un grupo de vecinos protesta ante la puerta del diputado de distrito exigiendo mayor atención para la zona. Un grupo de mujeres interrumpe el normal funcionamiento de un centro comercial que no contrata latinas. Un grupo de afroamericanos se dirige al barrio rico de la ciudad con el fin de señalar a los dignos propietarios de las infraviviendas que habitan. En EEUU, este tipo de acciones han sido desarrolladas desde los años cincuenta por el movimiento del community organizing (organización comunitária).Saul Alinsky tuvo un papel protagonista tanto en los comienzos como en el primer desarrollo de esta rama del activismo estadounidense: participó en la organización de los guetos negros de Chicago y Nueva York, animó la constitución de las primeras fundaciones y asociaciones del organizing y a partir de su experiencia y de sus reflexiones formó a cientos de activistas. En 1971 escribió Tratado para radicales con el fin de condensar estos saberes acerca de cómo conectar con la gente y cómo poner en marcha tácticas y campañas divertidas y siempre eficaces. Una colección de métodos y sugerencias pragmáticas que parten de un análisis realista de la situación y que básicamente tienen un solo objetivo: demostrar que con organización sí se puede arrancar el poder a los poderosos, que nuestro horizonte puede ser la revolución. Obviamente o articulista enfatiza, com propriedade, a perspicácia do autor na abordagem de tema tão complexo. Há que se considerar que o fulcro do texto enfatiza o poder das minorias, que podem, juntas, tal qual o símbolo de Roma (fasces"carregada pelo"Lictor", O feixe de varas de bétula branca suportam o machado. O simbolismo terminou redundando no fascismo, onde o povo, grupo de varas, agia em torno de um poder. Pode-se até radicalizar e dizer que todos os regimes políticos têm o mesmo princípio. Nós aqui no Brasil não estamos habituados com isso, daí a razão da reação a algo extremamente comum na maioria dos Países. Quando o povo não quer mais aquele governante se reúne e decide a troca. Mesmo nos países monarquistas" a coisa funciona assim ". No Brasil ainda há capitanias hereditárias com o poder passando de pai para filho. Ontem um politico disse que iria sair da política depois de 60 anos, ou cerca de três gerações, vivendo ás custas do povo. Os dois Estados onde atuou são considerados os mais pobres do País. Por que isso? Não do afastamento, mas sim a da contínua permanência? Os autores citados no texto tratam claramente da questão. Quando quiseram tirar Collor do poder não houve problemas. Com a ajuda da própria OAB e daqueles políticos que não haviam se beneficiado com o botim, se reuniram e o presidente foi deposto. Retornou com pompa e circunstância como Senador e já com acordos com seu antigo aliado e depois rival. No pequeno estado, territorialmente falando, de onde saiu a segunda geração do ex-amigo ou ainda amigo do ex-presidente é governador. Quem o elegeu? Por que o elegeu? O que ganhou com essa eleição? Ampliando a visão, por que 39 ministérios? Por que um partido político luta pela obtenção de um naco de 15.000 cargos públicos importantes? Será somente essa a visão de nossos políticos? Certamente que sim. Gradualmente a quantidade daqueles que se desestimulam para sair de casa e ir votar está crescendo. Será que o fazem porque não se sentem importantes? Não, mas sim porque sabem que com os seus votos ou sem os seus votos tudo continuará como Dantes no Quartel dos Abrantes. É uma pena que isso ocorra, mas o autor do livro, país limítrofe do nosso grande Brasil, demonstrou sua perspicácia resumindo que só com a união do sofrido povo pode se mudar alguma coisa, já que, afinal de contas, somos nós que pagamos a conta e nada saboreamos. continuar lendo

A breve leitura da resenha, acerca da obra em comento, leva o raciocínio a uma inevitável conexão, isto é, a estabelecer uma associação: o exercício do poder pelo arranjo político, supostamente de esquerda, que comanda o país nos últimos 12 anos parece se amoldar ao quadro desenhado por Alinsky. É notório, por parte dos mentores do PT, o desprezo pela ética e pela moral na política. Parece que, neste caso, os fins justificam os meios. De fato, temos aqui uma abordagem interessante: de um lado Maquiavel, para quem a política não se mescla com a Moral, ao menos em determinadas circunstâncias e, por outro lado, uma esquerda para quem a moral, no seu todo, deve ser rejeitada, em prol do projeto de poder a ser perseguido. Qualquer semelhança com o que vemos no país, sob o comando do PT, não é mera coincidência. Há muito tenho dito que essa pseudo esquerda, ou melhor, essa esquerda reacionária que ai está, tem a moral e a ética como um discurso burguês que visa perpetuar o status quo dominante, desfocando da política o jogo de dominação que afirma existir entre as classes sociais. Não que esta dominação não exista, no plano econômico, penso eu, mas que categorizar a ética e a moral como instrumentos burgueses de dominação resulta em uma prática política perigosa, verdadeiro viés que conduz à instrumentalização do Estado, como está ocorrendo na vida nacional. É necessário desconstruir esse discurso montado pela esquerda sessentista e, por outro lado, resgatar o papel da política como meio de administração de conflitos, inclusive para reafirmar que a ética, entendendo esta como um instrumento de definição do que é bom ou ruim, desejável ou não desejável, é elemento, hoje, valorativo no jogo político, mesmo a despeito do que pensava Maquiavel. continuar lendo

Exatamente George. Obrigado pela colaboração! Abraço fraterno! continuar lendo